domingo, 28 de agosto de 2011

Algures...

Não que tenha de começar “em grande”, mas será evidente a minha tendência para determinado género, e será determinantemente impossível camuflar a minha identificação quase absurda de tão real com a visão de Sofia Coppola, que roça a minha (não obstante não gozar do mesmo talento para a transformar em arte…).
Todo e qualquer filme da “minha” Sofia é antecipado com a ansiedade de uma criança no Natal. Espreito, como se procurasse os embrulhos guardados pelos pais temerosos da descoberta, todos os trailers, músicas já escolhidas, actores seleccionados, entrevistas de “mercado negro”, opiniões, antevisões, antestreias, demonstrações antecipadas em Cannes, críticas (ainda que com a reserva habitual de saber tratar-se de um génio vezes demasiadas incompreendido). Conto os dias e asseguro o ritual: qualquer filme meu é obrigatoriamente visto numa sala de cinema. Desde As Virgens Suicidas, as quais foram lamentavelmente descobertas tardiamente, e portanto, contra todas as superstições e rituais, alugadas e vistas em casa, fiquei presa. Como em qualquer descrição de uma coisa que vemos como só nossa, as palavras não preenchem, deixam espaços vazios. Falar de planos imperfeitos de tão reais, fotografia precisa, banda sonora indubitável e criteriosamente encaixada, personagens de coerência e densidade sem precedentes, é redutor. A Sofia é a Sofia, e qualquer detalhe deixado de fora na descrição não lhe faz justiça. Toda ela é detalhe, pormenor, mas é-o tão desestruturada e impulsivamente que o torna doloroso. Entra, toca, arranca e foge. Não permanece. Como se gritasse, sempre em entrelinhas, que o belo se esvai, a felicidade escapa, e o momento não foi feito para se agarrar. De que valeria se se tornasse rotineiro?!
Este não é um post sobre o Somewhere. Nem um post sobre quanto o Somewhere é o decalque e, simultaneamente, o oposto do Lost in Translation (veja-se ambas as cenas quase finais e as palavras sussurradas a contrastar com o grito desesperante de quem se silenciou demasiado tempo).
Não é um post sobre quanto o Somewhere é a tradução literal da “Homesick” dos Kings of Convenience.
É um post que vai recusar referir a genialidade de quem pega em quotidiano e o transforma em felicidade crua (não sem a dose inevitável de amargura e nostalgia que a caracterizam, por não ser eterna).
Esses estão prometidos à partida. Este blog não seria meu se não pusesse a Sofia na ribalta.
Este é um post mais simples. É um que agradece à amiga que vê Sofia Coppola e pensa em mim.
É reconfortante. E é só. E um só que não é pouco.
Somewhere, I’m sure…

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Fast Top 5

O mais óbvio será começar pelo meu top.
Não sem antes explicar que o objectivo deste blog, que não se assume como contributo per se mas sim como partilha (e, portanto, espero ansiosamente comentários), será expor a minha visão de filmes que se cruzam no meu quotidiano pelas mais variadas razões.
Lamento, desde já, e não por culpa auto-imputada, a por vezes evidente falta de actualização, mas a cidade pouco fervilhante em termos culturais não me permite acompanhar tanto quanto gostaria o que por ora passa nas salas.
As minhas desculpas igualmente pela ausência (não total, mas um pouco declarada) de clássicos: não me assumo enquanto cinéfila, não vou rebuscadamente procurar ligações a filmes que há séculos vivem por não serem o que mais me define. Talvez haja salpicos antigos dos poucos que conheço sempre que fizer sentido (e quem sabe este blog ajudará à criação de novos e renegados gostos – nunca percebi se por preconceito ou se por assumida antipatia).
Voltemos ao que interessa.
Nunca me foi fácil fazer tops. Aliás, fácil é. Mas não consigo fixá-los. Faço-os constantemente. Mudo-os constantemente. Mantenho contudo a minha fidelidade a meia dúzia que, por alguma razão (talvez um dia aqui a exponha), me prenderam para a vida.
O que proponho hoje é, no entanto, um top diferente. O Fast Top 5, hábito tristemente abandonado, e que gostaria de recuperar.
Em 5 minutos, os 5 melhores filmes que vos surgem.
Não pensem, escrevam.
Aqui segue o meu, feito segundo as regras:
1.       As Virgens Suicidas
2.       Before Sunset
3.       Annie Hall
4.       Dancer in the Dark
5.       Volver

Pontapé de saída…  

O porquê

Poderia começar com o cliché “o cinema é a minha vida”, mas de facto seria mais criteriosa se afirmasse que a minha vida é cinema. Eis a diferença: a vida imita o cinema que imita a vida. A minha, pois claro. Dramatismos e citações perseguem os meus dias. Tudo, mas tudo, o que me surge, me acontece, ou que escolho ignorar liga-me a histórias contadas (e filmadas) por outras. Paixão doentia, revejo até à exaustão os preferidos, com a certeza de que por momentos o real é só o ecrã, e a realidade acaba por ser caricatura. Ali, sou a mente desenraizada, pronta a criar-se.
Vivo de paixões, cada vez mais das que consigo concretizar. Aqui vai o primeiro passo de um sonho, que começou pequenino, mas que me dominou sem me dar outra alternativa que não a acção.
O meu cinema, como nunca o escrevi, começa agora a gatinhar.